segunda-feira, 9 de abril de 2012

As palavras que um dia te direi

Acordei num dia enublado. Com os olhos entreabertos, e com o cérebro prestes a acordar, ouvi a minha mãe a dizer-me "Anda, vamos ao hospital, que a avó está muito doente."

Nesse instante a única coisa que consegui sentir, foi a a minha cabeça bater involuntariamente na almofada e os meus olhos a verem mil e um reflexos seguidos, acabara de perder a noção da realidade?

Quando dei por mim, tínhamos levado quatro horas a chegar ao hospital, e o tempo de espera foi longuíssimo, como já seria de esperar. Estava para ali sentada, com a confusão a predominar na minha cabeça, com o medo sentado a meu colo e com o medo e o arrependimento a meus pés.

Esperei duas horas, com a cabeça encostada à parede a perguntar a Deus vezes sem conta, se mais uma vez me iria abandonar e me iria tirar uma das coisas mais preciosas que tenho na minha vida: o sorriso d'Ela
Já tinha passado por isto uma vez e acho inacreditavelmente impossível voltar viver com este peso que eu própria não conseguia aguentar.

Até entrar no quarto, onde Ela se encontrava, tinha-me passado tudo pela cabeça. Menos as palavras de conforto que lhe iria dirigir. E então quando já tinha a sua mão bem perto do meu coração, comecei-lhe a fazer as perguntas mais estúpidas que alguma vez me passara pela cabeça: "Então 'vó como te sentes?; Quando vieste para aqui?; Quem é que te veio trazer?"

Meu Deus! Depois de reflectir sobre isto, sinto que naquele momento uma pessoa me invadira o espírito e por acaso, possivelmente, estava a ter a última conversa com a minha avó.

Quando me vim embora, agarrei a sua mão enrugada e doce e disse-lhe que gostava muito dela, como ninguém! Sinceramente... Acho que nunca tivera coragem para o dizer.
Mas quando a vida me pregou uma partida, ensinou-me que vergonha é tudo o que não se pode sentir em dizer às pessoas que amamos o que elas valem realmente para nós. Porque nada é para sempre e a vida não espera por nós.

Passado umas semanas, a minha mãe recebe um telefonema e...

O pesadelo tinha acabado. O receio de adormecer todas as noites a pensar como seria a minha vida sem Ela, tinha passado. Toda aquela incapacidade de não poder fazer nada, tinha voado com o vento. Toda aquela revolta de não ter a fotografia de família perfeita - tudo o que ela sempre sonhara, tudo o que ela queria - tinha desaparecido quando oiço a voz de uma heroína, de uma rainha a perfurar o meu ouvido com quase toda aquela vida que um dia teve e que há-de voltar a ter, certamente.

Felizmente, não passou de um susto para o qual eu não estava preparada. Mas agradeço à vida, ou a Deus, ou a uma força superior por me ensinar, por me ter dado experiência e principalmente por ter dado a Luz à minha Avó, a Luz que nem sempre se consegue encontrar para fazer face às diversas dificuldades.
Por ter dado a Luz que outrora foi apagada para sempre no meu coração; Apagada, quando deixei de poder presenciar o meu Avô com as palavras que, em vida, nunca mais lhe direi, mas que as sinto todos os dias no meu coração.


                                                   

Sem comentários:

Enviar um comentário